Nesse picadeiro, os palhaços são expectadores

Ainda me lembro da vergonha alheia imensa que senti no jogo da final de handball masculino do PAN do Rio de Janeiro. Era Brasil vs. Argentina. Não preciso explicar nada sobre a rivalidade de qualquer evento que involva esses dois países certo? Bem, entram as seleções em campo. Brasil ovacionado com fervor. Argentina vaiada com igual fervor. Já nesse momento, fiquei com um certo desconforto, pois afinal de contas ainda nem se começou o jogo, mas vá lá. Brasil venceu num jogo suado, tenso e concorrido. Vem a premiação, com a medalha de prata para nossos hermanos. E, contra todas as minha expectativas… VAIA.

Desde esse dia, fiquei com a impressão que não sabemos nem a hora e nem o porquê de vaiar. Vaiamos simplesmente porque não gostamos, independentemente do que significa uma premiação, ou qualquer que seja o significado daquele momento. Compreendi até um pouco melhor as vaias que Lula, então presidente do Brasil, recebeu durante a abertura dos jogos.

Ontem, na abertura da Copa da Confederações em Brasíllia, novamente a vergonhosa vaia tanto ao Blatter como à Dilma. Ah, mas é protesto, é liberdade de expressão, é democracia. Sinto dizer que não é nada dessas coisas. Brasileiro tende a confundir esses conceitos com o “eu posso fazer o que quiser, na hora e onde eu quiser”. Novamente, é o desabafo do acomodado, que poucos minutos antes ria e se deliciava com o pífio espetáculo de abertura. São as mesmas pessoas que postam suas amarguras nas redes sociais, mas não saem às ruas. Votam nulo e igualmente se anulam da vida política. Compram ingresso caro para ver o espetáculo e vaiam a presidente da república.

No dia anterior (não poderia ser no mesmo dia, ok?) houve uma manifestação em frente ao estádio, com cartazes de repúdio ao evento e ao superfaturamento das obras. Trezentas pessoas. No jogo? 64 mil pagantes. Garanto que se um sexto, ou seja, 10 mil pessoas tivessem ido ao estádio na véspera para protestar, teria um “ibope” muito maior do que as meras vaias. Mas não. Esse não é o perfil.

Com relação ao boicote, que penso ser um método muito mais eficaz de protesto, alguns argumentam que, então, deveríamos boicotar também os transportes públicos e, por que não, parar de comprar alimentos. Ora, essa é uma falácia argumentativa baixa e tosca, já que se tratam de necessidades básicas as quais temos pouca margem de escolha se vamos ou não deixar de consumir. Quando o argumento é compra de carros, podemos simplesmente deixar de comprar carros zero km, ou mesmo não trocar de carro, investindo na manutenção do seu atual. Shows e eventos? Estão longe de ser necessidade básica. Deixem de ir no cinema, eventos, shows por um ano, duvido que não baixem os preços.

Mesmo com isso, ainda tenho esperança, dadas as últimas movimentações contra os aumentos das tarifas dos transportes públicos. Tenho a esperança que não sejamos mais o povo pacato, que ri do circo e vaia o palhaço, sentado do seu camarote ou na frente do seu celular. Que sejamos aqueles que sabem dos nossos direitos e deveres como cidadão e saibamos lutar na hora certa, do jeito certo.

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Uma resposta para Nesse picadeiro, os palhaços são expectadores

  1. La Lá disse:

    É exatamente isso o que eu penso. A pessoa paga um ingresso pra um jogo onde é realizado num estádio superfaturado e ainda quer vaiar. É praticamente um cúmplice da merda toda… É muita hipocrisia.

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