Joana não é flor-que-se-cheire

Verdade que quando Gilson olhou para baixo, não esperava aquela altura toda. Esperava que fosse fácil, já que a decisão havia sido tomada com tanta convicção. Ele pularia para o abismo! Para entender tal decisão, precisamos retornar um pouco no tempo, há uns dois meses atrás. Gilson se considerava muito feliz, pois tinha um bom emprego e uma mulher linda ao seu lado.

Trabalhava como corretor de seguros no Rio de Janeiro, ali na Voluntários, perto do metro e de sua casa. Adorava comida de boteco e sempre almoçava em um ao lado do escritório, na esquina com a Alameda Botafogo. Sua surpresa foi quando ouviu uma voz feminina e delicada pedindo ao garçom firmemente um prato um tanto quanto inusitado.
– Uma dobradinha, por favor.
Não… quem é a dona dessa voz, pensou Gilson, intrigado. Parecia que alguém havia pegado o controle remoto do bar e pressionado a tecla mudo, ao passo que todos os falantes homens calaram de uma só vez. Gilson voltou-se para trás, assim como a maioria dos marmanjos, os quais, como usuais frequentadores do pé-sujo, não puderam deixar de se surpreender. Afinal, mulher era coisa rara naquele ambiente. Ainda por cima com aquela voz. Ainda por cima com aquele corpo. Ainda por cima com aquele rosto. De fato, uma beldade.

Mas a surpresa maior de Gilson ainda estava por vir, porque o único a quem a moçoila devolveu o olhar foi para ele. Não bastasse, ainda lhe deu, assim de graça e sem mais nem menos, um sorriso bem aberto. Esclareço desde já que Gilson não era lá essas coisas, não era feio, mas não era bonito também. Certo que se arrumava e estava com um terno e gravata, coincidindo com o dia em que julgou ter feito o melhor nó de sua vida.

Depois de uns dois minutos, trinta e sete batucadas na mesa, duzentas e setenta e oito balançadas de perna (das duas pernas), três carapalmadas e um suspiro, ele resolveu que ia perguntar à moça se poderia acompanhá-la em sua refeição. Não, ele nunca fizera isso antes. Sim, ele era um pouco cara-de-pau.
– Oi… meu nome é Gilson… se importaria se eu acompanhasse você no almoço?
– Por que você acha que eu quero companhia?
– Não… eu não achei nada… é que, bem…
– Me importo.
– …
– Espera, é brincadeira! Senta aí!
Seu nome era Joana. Ela era personal trainer em uma academia ali perto. Contou também que gostava de fazer essa traquinagem, exatamente para ver a reação dos homens a sua volta, assim como aproveitar para tentar ter alguma companhia quando queria comer um de seus pratos favoritos, mas que ninguém mais no seu meio de trabalho gostava. Joana, como facilmente percebemos, era uma mulher manipuladora.

Gilson não errou ao pedir o telefone de Joana, nem ao ligar naquela sexta para esticarem em um happy hour, nem ao chama-la para ir ao Pomodorino da Lagoa, nem ao leva-la para sua casa. Não errou ao continuar a sair com ela mais cinco vezes em duas semanas. Ele errou ao se apaixonar por ela. Porque além de manipuladora, como já constatamos, ela era cruel.
Pois foi com crueldade que, passados um ano e quatro meses de namoro, sem mais nem menos, Joana contou para Gilson de seu casamento. Casaria em breve com um proeminente jogador de futebol (não citemos nomes, para não comprometer ninguém). Como se não bastasse, resolveu ser totalmente sincera, coisa que nenhuma pessoa deveria se atrever a ser, e contou que Gilson fora amante estepe. É como se fosse segundo e concorrente amante, por assim dizer. Gilson era o outro do outro. Poderíamos pensar, ingenuamente, que tratava-se de mulher corajosa. Afinal, sabe-se lá o que faria um homem apaixonado depois de uma revelação desse porte. Entretanto, não era o caso. Joana não terminou ao vivo. Sim, ela o fez por email. Já havia dito que ela era cruel, certo?

Pois bem, agora que o quadro já foi pintado, podemos retornar ao nosso clímax. Gilson, depois de subir todos aqueles lances de escada, estava prestes a se deixar ir, a um passo do abismo. E enquanto deixava o corpo pender para a frente, ia se lembrando daqueles momentos em que pensara ser o homem mais sortudo do mundo (mulheres cruéis sabem ser sedutoras e interessantes). Lembrou-se também de sua família, de seus amigos, de seus inimigos (se é que havia algum), do seu chefe, do café horroroso do escritório, daquele risco que fizeram na porta do seu carro sem nenhuma provocação aparente. Não, ele não lembrou de Joana. Na hora que abriu os olhos, viu que já estava caindo, que tinha medo de altura e que não havia volta. O coração parou por um instante, coincidente ao que se esqueceu de como tinha chegado naquele ponto.
A surpresa maior foi quando sentiu a força da grande corda, totalmente tencionada e bem presa aos seus pés, impulsionado-o para cima com uma velocidade incrível. Surpreendeu-se novamente ao parar no ar, como se não pesasse mais que uma pena, antes da segunda queda. Tanto que gritou:
– Uhulllll! Isso é bom pra caralho!!!
O primeiro bungee jump a gente nunca esquece!

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Uma resposta para Joana não é flor-que-se-cheire

  1. Dona Mila disse:

    Joana tem uma vibe sra. Bahls…

    E vc tá me surpreendendo a cada post. Juro que ainda compro um livro seu.

    Aí só vai te faltar plantar uma árvore!

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