Contos de João – parte 5

Pois então! Minha lua de mel foi uma semana passeando pela Urca. Nem pra ônibus eu tinha dinheiro! Sven me dava algo como uma cesta básica para eu e Nair nos alimentarmos. Ele era bem desprendido e me ajudou muito, inclusive segurando um pouco a barra para receber o pagamento da minha parte do aluguel.
Felizmente, eu logo comecei a trabalhar na Sears. Eu, um total ignorante, trabalhando no meio de um monte de estrangeiros: tinha sueco, dinamarquês, americano, espanhol. Pouquíssimos brasileiros. Não pense que meu trabalho era muito intelectual. Era totalmento o contrário! O modelo americano de gerenciamento era baseado em 13 ciclos de 28 dias cada. Enquanto, para fins contábeis, pelas regras tupiniquins, contava-se mesmo eram os meses em si. O grande problema é que todos os moldes de planilhas contábeis vinham dos EUA, no formato de 13 ciclos. Daí, era um trabalho braçal descomunal, aonde precisava-se de muita mão-de-obra e pouco cérebro. Tinha uma penca de pessoas fazendo isso, eu inclusive!
Pra piorar, eu era um “cata-milho” fora de série! Eu contra a Olivetti! O trabalho que todos faziam em quatro ou cinco horas, eu levava de oito a nove. E isso me rendeu coisas boas e ruins. O lado bom: Mr. Moore, o chefe da repartição, um americano com cara de americano, branco, gordo e com as bochechas rosadas, desfilava pelo corredor com seu terno sempre impecável. Mr. Moore sempre me via lá, sentado de cara pra Olivetti enquanto os meus colegas volta e meia iam tomar um café, fumar um cigarro e conversar sobre o jogo de futebol do domingo. Nada contra! Eu também estaria lá se pudesse! Mas eu tinha sempre que correr atrás do prejuízo, para conseguir entregar o trabalho a tempo. Por mais incrível que possa parecer, isso me rendeu a fama de “vestir a camisa da empresa” para o Mr. Moore, que sempre passava e me cumprimentava.
Ah, mas tem o lado ruim, não se esqueçam! Meus colegas começaram a me taxar de puxa-saco. E eu era meio que ignorado por eles. Não era pra menos. Eu, um brasileiro, que nem científico completo tinha, cercado de europeus e americanos, era o queridinho do big boss. Nessa altura, só mesmo o Sven ainda me dava atenção, além de um prato de comida no jantar, vez ou outra (eu ainda estava falido e o salário não era grandes coisas).
Pra facilitar ainda mais o meu trabalho, percebi um jeito mais prático de adaptação das planilhas. Assim, propus para o Jonas, assistente do meu chefe, explicando como pegar aquele molde de 13 ciclos de 28 dias vindo dos EUA e com simples recortes transforma-lo em nosso padrão. Eu não sei como ninguém havia pensado naquilo. Resultado: Jonas apresentou para o meu chefe, que por sua vez apresentou para o Mr. Moore. Daqui a pouco vejo Jonas, apressado e com a cara afobada:
– João, Mr. Moore quer você na sala dele agora!
– Sério… mas o que é que ele quer? Não pode ser coisa boa…
– Não sei, mas ele interrompeu a apresentação da sua proposta no meio, perguntou quem havia feito aquilo e mandou te chamar.
– Será que ele ficou ofendido?!?
– Vamos logo, homem!
E lá fui eu, tremendo nas bases. Porém, o inesperado, o impensável, o inimaginável aconteceu. E assim disse Mr. Moore, com seu portuinglês:
– Xoao, você estar promovido!

CONTINUA.

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2 respostas para Contos de João – parte 5

  1. Dona Mila disse:

    Empreguinho bom esse seu na Peroba, hein…
    😛

    Faz só um favor? Coloca “Parte 5 de X”, pelo menos pra eu saber quando vai acabar, ou quando estiver perto… Não creio que vou terminar Caim antes de saber quem ser Xoao!

    • Marcelo disse:

      Mas eu não sei quantas partes vão dar… eu vou escrevendo assim pra não ficar grande demais cada post.
      Mas tá perto do final. 🙂

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