Eloquência masculina

Lúcio desferiu mais um golpe em Matias. Mas dessa vez, acertou o vazio, ao som (inaudível para ambos) de “uhhhhh” da platéia que assistia. No calor da luta, pouco se escuta ou se vê do que vem de fora. Parece que uma redoma se materializa ao redor dos oponentes. É como se só existisse aquilo, desde o início até o fim dos tempos.
Era um belo final de tarde enquanto Matias andava pelo campus da universidade, próximo ao mar, quando avistou Lúcio ao longe. Talvez devesse mudar de rumo, mas pra quê adiar o confronto. Não haveria como fugir eternamente. Então, ele aperta o passo e segue, inexoravelmente.
Ao passar por Lúcio, finge que não o vê e percebe, com sua visão periférica, que ele também fixa o olhar em frente. Ah, ainda bem! Nem falar “boa tarde” daria certo! Entretanto, para sua surpresa…
– Ei! Seu viado cara-de-pau!
Matias se volta para trás…
– Lúcio… que é isso…
– Que é isso é o caceta! Pensei que ia falar algo comigo, mas você é um frouxo mesmo…
– Por que a agressão? A gente pode resolver isso com calma…
– Não tem calma… vamos resolver isso agora… na mão!
E enquanto falava, Lúcio tirava a mochila das costas, deixando-a sobre o gramado. O volume de sua voz acabou por atrair algumas pessoas, que já ligavam para outras, avisando sobre a iminente briga. Fisicamente, Matias levava vantagem, por ser mais alto. Porém, Lúcio já treinara boxe e era bem ágil.
– Bem, se é isso que você quer, vamos resolver isso de uma vez; disse Matias já conformado e, de certa forma, satisfeito com o desafio de Lúcio.
– Finalmente tá agindo como um homem; diz Lúcio com um meio sorriso.
Ambos levantam a guarda e se estudam por um tempo. Lúcio é o primeiro a atacar: um jab certeiro no peito de Matias.
– Só pra você ficar esperto!
Mal acaba de falar e Lúcio recebe um soco nas costelas.
– Cala a boca e se defende! Não vou aliviar!
Ambos sorriem de satisfação! E continuam trocando golpes. Acertando alguns e errando vários. Muitos na guarda e outros não. Matias acerta um direto no nariz de Lúcio que deixa um filete de sangue escorrendo. Ao perceber isso, Lúcio usa de sua agilidade ao máximo, desferindo um gancho na boca do estômago de Matias.
Nesse momento, uma roda já se formava, com torcida e tudo. Não, não havia ninguém da turma do “deixa disso”.
E assim continuava. Matias mal conseguia acertar Lúcio (o direto parecia ter sido um golpe de sorte), ao contrário do que ocorria com Lúcio, que acertava Matias na boca do estômago, no fígado e nas costelas. Estava poupando o rosto, talvez por saber do estrago que poderia causar. E a aglomeração vibra com cada golpe!
– Vai Lúcio! Acaba com ele!
– Matias, não dá mole não!
Mas eles não escutam nada. Nem a torcida, nem o vento, nem um avião que voa baixo por ali. É só o som da respiração e dos socos. E por dez minutos, eles continuam. Lúcio, visivelmente cansado de tanto se mexer e socar. Matias, um pouco menos, mas arrasado por ter recebido tantos golpes. Uma coisa é certa: nenhum dos dois quer desistir ou aceitar um empate.
Então, continuam. Lúcio tenta concentrar um golpe que faria com que Matias desistisse e… erra. Soca o ar! Matias, aproveitando-se do desequilíbrio do adversário, acerta a boca do estômago com toda a força, a qual somada ao movimento de Lúcio, o faz ficar de joelhos. Com dificuldade para respirar, Lúcio se deita no chão e desiste.
Matias se recompõe e se aproxima.
– Cara… desculpa ter saído com a Vera sem te falar…
– Fura-olho… (arf)… podia só ter me… (arf)… avisado…
– Eu sei…
– Me ajuda aqui… (arf)… te pago um chopp…
– Não… hoje é por minha conta.
E ambos se dirigem ao bar, comentando como Vera, aquela vaca, é gostosa.

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3 respostas para Eloquência masculina

  1. Dona Mila disse:

    Cabeça de homem é tão mais simples… fossem duas chicas ia rolar mahomenos assim:

    -Oi, amigammm! Vc tá linda! Toma um chocolatinho…
    (come, baranga escrota que roubou meu homem…)
    -Oi, querida! Vc também tá óóóóótima! Obrigada pelo chocolate!
    (ha ha, corna… Valeu pelo chocolate, to precisando mesmo repor as energias que gastei com o fulano, então foda-se).

    E se despedem se chamando mutuamente de queridas, vão direto na mãe de santo pra fazer mandinga.

    🙂

  2. O bruto !!! disse:

    Rsrs…. Muito bom, principalmente a narrativa dos golpes!!!! Lembrei da minha infância, onde se resolvia na mão!!! Rsrsrs… E o final foi perfeito, assim que se termina uma boa briga. Indo para o bar !!!!

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